Mostrando postagens com marcador artigos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador artigos. Mostrar todas as postagens

28.7.11

Você é calouro?


Reproduzo aqui, integralmente, um artigo excelente do colega Ênio Padilha, dedicado aos que iniciam uma carreira em arquitetura e engenharia. Direto ao ponto, como sempre!

Carta a um Calouro (de Arquitetura ou de Engenharia)


Parabéns! Você acabou de ingressar numa carreira muito bonita, cheia de recursos e alternativas. Sim, sua carreira começa agora, no primeiro dia da faculdade e não no dia da formatura, como muita gente pensa.

Quando analisamos a carreira de um profissional, quaisquer que sejam os critérios ou parâmetros sempre chegamos à conclusão de que o que é feito (ou deixado de fazer) durante o curso, ecoa por toda a carreira. É impossível desvincular as conquistas e as derrotas, o sucesso e o fracasso de um profissional das suas decisões, atitudes e comportamento DURANTE a faculdade.
Portanto, preste atenção no que você faz ou deixa de fazer agora. A conta NÃO será apresentada daqui a cinco ou dez anos. A conta será cobrada daqui a trinta anos, quando você já estiver formado a 25. É aquele momento da carreira em que o profissional começa desfrutar dos investimentos pessoais de tempo e energia realizados até ali.

Aqui esbarramos em dois problemas típicos da juventude: você deve ter 17, 18 ou 19 anos e, se você for uma pessoa normal, (1) Você não deve ter muita paciência com textos longos e já deve ter corrido o olho até lá embaixo e não gostou nada do comprimento dessa conversa; (2) Você nunca pensou em você mesmo com 50 anos de idade e, portanto, não considera necessário se preocupar com uma conta que só será cobrada daqui a 30 anos.

Bom, com relação ao tamanho do texto, admito que o poder de síntese é importante... mas, acredite, existem assuntos que realmente exigem mais de 140 caracteres para serem tratados com o devido respeito. A sua carreira profissional é uma delas; Mas você pode abandonar a leitura aqui...

Quanto ao segundo item a questão é mais complexa. Os jovens tem mesmo grande dificuldade de lidar com o futuro. Mas lembre-se de que, quando criança você dificilmente pensava além do próximo fim de semana. Na adolescência o futuro era a próxima festa com os amigos; Agora, apesar da dificuldade de visualizar os seus 50 anos, você já consegue fazer planos para o final do semestre e até mesmo para depois da formatura. Ou seja: expandir os horizontes do seu planejamento pessoal é uma questão de amadurecimento. E você está amadurecendo.
Quanto mais maduro você estiver, maior será o seu horizonte de tempo no planejamento pessoal. Exercite-se! Lembre-se que muitos jovens desperdiçam a juventude exatamente por não ter noção de que ela NÃO É ETERNA.

A juventude é um recurso valioso, que você recebe sob a forma de saúde, força, resistência física, reflexos, plenitude dos sentidos e muita energia. Este recurso (a juventude) deve ser aproveitado pela pessoa para explorar o mundo, crescer, se divertir e desenvolver seus talentos.
Algumas pessoas fazem a opção de consumir a sua juventude apenas em festas, jogos e outras atividades que envolvam APENAS distração e diversão; Você, que acaba de entrar em uma faculdade de Arquitetura ou de Engenharia provavelmente não faz parte deste grupo pois, sabemos que o acesso a esse curso, via de regra, não é fácil e não está ao alcance de quem optou por (apenas) se divertir durante a adolescência.

Portanto, boa parte do caminho você mesmo já trilhou. Agora, se me permite, vou dar de graça alguns conselhos que eu considero importantes.

O primeiro conselho que eu dou a um estudante de Engenharia ou de Arquitetura é Estudar Muito. Como diz o colega Sebastião Lauro Nau, numa entrevista concedida para minha pesquisa (um trecho está publicado aqui"Por mais que digam que as suas notas não têm importância e o que importa é você se formar e ter o diploma, isso não é bem verdade. Você tem que ser um bom aluno. Tem que adquirir o conhecimento, porque é esse conhecimento adquirido na universidade que vai lhe dar condições de continuar a aprender. Vai lhe dar disposição para aprender. Deve ser um bom aluno, ou seja: tirar notas boas, sim. Não pensar que isso não é importante. As empresas valorizam quem tem um bom histórico escolar."

Acredite este é o momento na sua vida em que você terá a oportunidade e o acesso a informação e conhecimento num nível superior de profundidade e num volume como você não terá em outras oportunidades. Aproveite. Aprenda muito. Não se perca em divagações tolas do tipo "Que utilidade isto terá para o exercício da minha profissão?" Não cabe a você essa discussão e você, infelizmente, não está preparado para ter respostas satisfatórias. Então apenas estude. E estude muito! Não se limite a estudar apenas o suficiente. Estude muito. Os medíocres estudam o suficiente. Quem quer ser grande estuda muito.

O segundo conselho que eu dou contraria o senso comum: com certeza alguém já deve ter aconselhado você a trabalhar durante a faculdade, para adquirir o conhecimento prático (experiência). Eu digo, NÃO FAÇA ISTO! Faculdade não é lugar para se obter experiência e prática profissional. Isso você vai conseguir (facilmente) depois de formado. Experiência se obtém muito rapidamente quando se tem uma boa teoria.
Durante a faculdade, preocupe-se (dê prioridade) ao conhecimento teórico. Aprenda a organizar idéias, equacionar problemas... Aprenda a pensar. Isso é o que importa! O mercado está cheio de fazedores. Gente que põe a mão na massa. Mas os valorizados são justamente aqueles que conseguem pensar melhor sobre o que estão fazendo.

Vou repetir aqui pra não deixar dúvidas: experiência e prática são importantes para o exercício profissional. Mas os estágios curriculares e algumas atividades extra-curriculares são suficientes para que você saia da faculdade pronto para enfrentar o mercado. A verdadeira experiência e o domínio da prática profissional deve ser uma conquista pós-formatura.

Terceiro conselho: Comece a construir a sua rede de relacionamentos. Mas, preste atenção: rede de relacionamento não é rede de pescar. Não é teia de aranha. Não é rede de contatos pra se dar bem ou para ter pra quem pedir coisas, quando precisar. Nada disso!
Uma rede de relacionamentos é um conjunto de conexões consistentes que o indivíduo estabelece com pessoas com as quais ele interage, de forma ativa e generosa. Sim, eu disse GENEROSA! Você precisa se doar, ser útil, contribuir para o crescimento dos indivíduos que fazem parte da sua rede de relacionamentos.

Portanto, construir uma rede relacionamentos significa ser alguém para os outros. Significa registrar-se de forma positiva na mente dessas pessoas. Significa ser alguém em quem essas pessoas pensarão (de primeira) quando estiverem em busca de alguém que seja capaz de assumir uma responsabilidade, resolver um problema ou tocar um projeto qualquer.

Este período de faculdade (e também os primeiros anos depois de formado) é o tempo certo para construir uma sólida rede de relacionamentos, porque é o período em que você terá contato com o maior número de pessoas em toda a sua vida: seus colegas de sala de aula, seus colegas de outras turmas da faculdade, estudantes de outros cursos, professores, funcionários da escola, visitantes, parentes, empregados e patrões nas empresas onde você fizer estágios, participantes dos fóruns, seminários ou congressos dos quais você participe e mesmo a turma das festas e das atividades esportivas... é muita gente!

Capitalizar esses contatos é uma questão de estratégia e inteligência. O objetivo é simples: ser interessante (ou seja: fazer com que as pessoas se interessem por você e pelos seus objetivos). A estratégia sugerida é ser útil. Ninguém se torna interessante se não serve pra nada!.

Seja útil. Seja disponível. Ajude as pessoas. Divida conhecimentos. Seja generoso. Não espere recompensas imediatas. O retorno do investimento na Rede de Relacionamento não é pontual. Não se trata de um "toma-lá-dá-cá". Investir numa Rede de Relacionamento é construir um universo que conspirará a seu favor, no futuro!

Tenho mais conselhos, mas vou parar aqui (por enquanto). Nem sei ainda como esses primeiros serão recebidos...

Além do mais, sei que já estou abusando do quesito "tamanho do texto"

ÊNIO PADILHA
www.eniopadilha.com.br | ep@eniopadilha.com.br

23.9.10

A competência incomoda?

Não é de hoje que há no meio corporativo um sistema de "premiação" às avessas para a competência, onde o destaque de um funcionário é diretamente proporcional às tentativas de "sabotagem". Me espanta como isso é comum na área da construção civil, seja em construtoras ou em qualquer empresa que possua uma gerência de obras, como hospitais, shopping centers ou condomínios.

A construção civil desenvolveu um método próprio de trabalho onde, na maioria das vezes, estabelece-se um sistema que premia o "mais ou menos". Qualquer tentativa de otimizar o trabalho, introduzir um sistema de gerenciamento de projetos e obras, que permita aferir o desempenho de desenhistas, projetistas, arquitetos e engenheiros de acordo com sua produtividade não é bem vista. "Para que mudar se eu faço desse jeito há anos?" é o que mais se ouve.

Talvez essa seja a origem do desperdício de tempo, de material, de dinheiro do cliente e da falta de possibilidades concretas de evolução nas técnicas de elaboração e gerenciamento de projetos ou na busca de novas tecnologias. "Lá vem aquela arquiteta se intrometer no meu jeito de trabalhar. Quem ela pensa que é?". Isso é mais comum do que imaginamos.

Qualquer tentativa de implementação de um programa de qualidade, tão em voga nos últimos anos, transforma-se num trabalho hercúleo. Simplesmente pelo fato de que a principal matéria-prima são as pessoas. E pessoas na construção civil não gostam de mudança. Se sentem ameaçadas pela competência. Enxergam um colega ou um subordinado eficiente como uma ameaça, ao invés de tê-lo como uma importante ferramenta de transformação. Será que um dia isso vai mudar?

5.9.10

Quanto vale seu trabalho?



Como cobrar por um projeto? Talvez esta seja a lição mais difícil que temos que aprender quando saímos da faculdade. Afinal, ninguém nos ensina como quantificar nossa preciosa mão de obra. Lembro-me de 10 anos atrás, quando me formei, e a dificuldade que tive para chegar a um valor justo, que ao mesmo tempo fosse competitivo para um recém-formado, ávido para conquistar seu lugar no mercado. Com o tempo e a experiência, aprendi que, muito mais do que lucro, existe algo chamado CUSTO, que deve ser minuciosamente considerado na formação do preço de venda de um serviço / produto (sim, o projeto é um produto, com custo de captação, de produção e de divulgação).

 O método consagrado pelo mercado é o R$/m², que gera uma série de discrepâncias e dificuldades. Quanto vale um projeto de uma residência? São todas iguais? Será que necessariamente quanto maior a casa maior será o trabalho para projetá-la? Um loft de 600 m² é consideravelmente mais simples do que uma casa de 150m², com três quartos, dependência de empregada, área de lazer ou coisa que o valha. Onde entra o componente experiência? como medir que a casa do arquiteto A seja projetada por R$ 25,00/m² e o arquiteto B cobre R$ 40,00/m²? O cliente espera - e merece - transparência.

Outro método é aquele que estipula um percentual relativo ao valor estimado da obra. Tal metodologia encontra eco no IAB - Instituto de Arquitetos do Brasil (http://www.iab-es.org.br/modulos/portal/f_tblhnr.cfm). Um pouco mais realista, baseia-se no CUB (Custo Unitário Básico), fornecido pelo SINDUSCON de cada região. O problema é que valores estimados são o que são: estimativas. Outra questão pouco ou nada considerada nesta metodologia é o quanto se gasta para elaborar um projeto. Quanto custa para mim fazer este projeto?

Fiz, há mais ou menos 7 anos, um curso com o Professor Arq. Walter Maffei, que considera exatamente os custos (diretos e indiretos) para a elaboração dos serviços (projetos incluídos) de arquitetura. Este método, mais indicado aos colegas que têm escritório, baseia-se em tudo que se gasta para o escritório funcionar, tendo clientes ou não (aluguel, secretária, internet, telefone, água, luz, material de escritório etc), os custos indiretos; e tudo que se gasta na produção do projeto (o seu salário, subcontratados, plotagem, maquetes, estagiários), os custos diretos. Em função disto, chega-se ao valor ideal em relação às horas demandadas pelo escritório para realizar determinado trabalho. Tem funcionado pra mim. Uso até hoje as planilhas fornecidas pelo professor Maffei, personalizadas com meus custos e abastecidas em cada projeto pela quantidade de horas necessárias para a realização de cada serviço, desde desenhos às reuniões com o cliente. Já pararam pra pensar no quanto fazemos serviços gratuitos quando trabalhamos? Pelo que exatamente somos pagos?  Todas aquelas reuniões para modificar o projeto, as idas às lojas, as conversas com os projetistas de instalações e estruturas, nada disso muitas vezes é cobrado.

Outra vantagem é a possibilidade de medir a "viabilidade financeira" do escritório, através de uma relação direta entre custos diretos e indiretos. Quanto mais se gasta no escritório, maior deve ser o salário do arquiteto titular. Meio óbvio, mas quando vemos isso matematicamente fica mais fácil de entender.

Enfim, acho que o caminho para o preço justo pelos nossos serviços é entendermos, antes dos nossos clientes, como é difícil e caro projetar e tocar o dia-a-dia de um escritório de arquitetura.